quinta-feira, 16 de junho de 2011

Chico Buarque e as raízes do Brasil

Em questão, a falta de contato entre o cantor e o povo
Paulo Cesar de Araújo*


Chico Buarque não é e nem nunca foi unanimidade nacional – ao contrário do que disse Millôr Fernandes nos anos 60, e muitos repetem até hoje. Naquela época, especialmente após o lançamento de A banda, no fim de 1966, ele de fato alcançou grande popularidade e tornou-se figura fácil em capas de revistas e programas de televisão. Suas canções ganhavam elogios de personalidades que iam do crítico comunista José Ramos Tinhorão ao dramaturgo reacionário Nelson Rodrigues, todos saudando Chico como uma espécie de novo Noel Rosa. Mas talvez por isso mesmo, e porque sua música não sintonizava com as novidades estéticas do que viria a ser chamado de Tropicália, Chico sofria críticas de setores de vanguarda, que tinham no poeta concretista Augusto de Campos um dos principais porta-vozes. Desafinando o coro dos contentes com a A banda, Campos preferia exaltar a canção Um dia, do mesmo festival, do ainda pouco conhecido Caetano Veloso. E, ao vislumbrar novos rumos para a MPB no festival de 1967, ele dizia  que o sucesso de A banda, no ano anterior, “pode ter servido para tonificar, momentaneamente, a abalada popularidade da nossa música popular”. E completava: “Mas eu já adivinhava que a solução não poderia ser voltar para trás”.      

Defensor das conquistas da bossa nova e do avanço experimental de novos sons e novas letras para a MPB, Augusto de Campos identificava na obra de Chico (e na “chicolatria” em torno dele) um estorvo a este projeto. Tendo como referência os primeiros discos do artista – em que predominam marchinhas e sambas à moda de Noel Rosa – o poeta dizia que era “impossível fazer o novo com o velho” e que “na sua indecisão entre Noel e João Gilberto, Chico pagou tributo à redundância”. Para Campos, o fato de Chico ter sido rapidamente incensado pelos puristas do samba indicava que eles pretendiam fazer dele “o último baluarte contra a evolução da música popular”. Não por acaso, no auge desta polêmica, já com a eclosão do Tropicalismo, o compositor  Tom Zé disse numa entrevista que Chico deveria ser respeitado pois era “nosso avô” – mais um episódio que desmente a suposta unanimidade do cantor. 

Imerso na roda-viva de shows, discos e festivais, Chico viu-se precocemente identificado ao incômodo grupo dos chamados quadrados, antigos. E isso, nos juvenis anos 60, era quase uma sentença de morte artística. “Nem toda loucura é genial, nem toda lucidez é velha”, defendeu-se num artigo de jornal, em 1968. Mas sua resposta mais convincente só viria mesmo pouco mais tarde, quando já estava retornando do auto-exílio na Itália. O LP Chico Buarque de Hollanda volume 4, lançado em 1970, trazia o artista um pouco diferente. Aquela temática samba-morena-barracão, e sua poética linear discursiva dos primeiros discos cederam espaço a uma diversificação de forma e conteúdo, que se expressaria em canções como Rosa dos ventos e Agora falando sério. Mudança que se acentuou no disco seguinte, com Deus lhe pague e Construção, faixa-título de letra concretista, com arranjo do maestro tropicalista Rogério Duprat. A partir daí o impasse entre Chico e os vanguardistas pareceu resolvido – e a celebração se deu no histórico show com Caetano Veloso, na Bahia, em 1972. Colocando panos quentes de vez, o próprio Augusto de Campos reconheceu, na época, que a obra do Chico havia evoluído “no sentido da inventividade”.

Chico Buarque tornou-se então unanimidade nacional? Não. Até porque, com a radicalização política do país no pós-AI-5, mais do que burra esta unanimidade seria impossível. Antes, ele até recebera afagos do então marechal-presidente Costa e Silva; mas agora, erguido como símbolo de resistência à ditadura – o nosso Errol Flynn, no dizer do cineasta Glauber Rocha –, o próprio Chico metaforizava o veto ao seu nome com os versos “você não gosta de mim/ mas sua filha gosta”. A imagem apolínea, apolítica e de bom moço do cantor ficara definitivamente para trás.  Mas o que também o distanciava de uma possível unanimidade era a falta do respaldo popular de antes. Depois que a banda passou, Chico foi se tornando cada vez mais um artista restrito a um público de elite, segmento que a indústria cultural classifica como A e B. Donde a imprecisão de considerá-lo “unanimidade nacional” –  a não ser que se confunda, como costuma acontecer, a Zona Sul com o Brasil, a elite com o povo, o particular com o universal.

Depois de superado seu impasse com os tropicalistas, talvez fosse melhor relacionar Chico a uma possível “unanimidade intelectual”. Chico Buarque é o artista que hoje une as elites intelectuais brasileiras. E isto nem um outro cantor ou compositor popular conseguiu fazer. Nem mesmo Tom Jobim, que durante toda a carreira sofreu duras críticas dos ideólogos do samba tradicional, que o acusavam de fazer uma música americanizada, distante das autênticas fontes populares. Restrições assim também foram direcionadas a Caetano Veloso e, de forma bem mais acentuada, ao trabalho de Roberto Carlos. A Chico Buarque, não, porque, mesmo se “modernizando”, ele sempre esteve identificado à linhagem do samba, ritmo que, aliás, nunca faltou nos seus discos. 

Reflexo do dilema de uma elite em busca de sua identidade nacional, esta tensão entre “modernidade” e “tradição” ocupa o centro do debate da música popular brasileira desde a eclosão da bossa nova, no fim dos anos 50, quando efetivamente o tema “canção” começou a ser objeto de análise por parte da intelectualidade. A partir daí é possível detectar o principal parâmetro de julgamento estético de uma obra musical no Brasil. Ei-lo: para ser bem qualificada pela crítica ou aceita pelo público intelectual esta obra precisa estar obrigatoriamente identificada ao que se considera “tradição” (folclore, samba de raiz, samba de morro) ou então ao que se considera “modernidade” (influências de vanguardas literárias ou musicais, como o jazz, a bossa nova, o rock inglês). Fora desse receituário, não há salvação.

Por que é atribuído grande valor cultural ao repertório de artistas como Nelson Sargento ou Lenine? Porque o primeiro está identificado ao samba de raiz, à negritude, ao Rio de Janeiro. E, o segundo, à modernidade, às influências da bossa nova e do Tropicalismo. O mesmo não acontece com o repertório de cantores populares, desde Anísio Silva e Orlando Dias até Nelson Ned e Paulo Sérgio, todos considerados bregas, ruins, justamente porque não conseguem ser identificados nem à tradição, nem à modernidade. Assim como a produção de Waldik Soriano, Agnaldo Timóteo e Odair José: a nem uma coisa, nem outra. Já nomes de também grande popularidade entre as classes menos favorecidas, como Martinho da Vila e Zeca Pagodinho, são valorizados porque associados à “tradição”; ocorrendo algo semelhante com Milton Nascimento e Djavan, porque identificados à “modernidade”.  

Pairando acima de todos, Chico Buarque consegue uma aprovação unânime das elites culturais exatamente porque agrada tanto aos adeptos do samba tradicional  como aos defensores da chamada linha evolutiva da MPB. E isto explica, por exemplo, o resultado de uma pesquisa que a revista IstoÉ realizou com seus leitores em 1999, para a escolha do “músico brasileiro do século 20”. De uma lista de 30 nomes apresentados para a eleição  – Chico, Tom Jobim, Pixinguinha, Caetano Veloso e Roberto Carlos, entre outros –, o público leitor da revista, que possui um perfil  de classe média e nível universitário, escolheu exatamente ele, Chico Buarque, eleito por 76,48%  dos votos. Ou seja, a maioria absoluta.  

Constata-se, entretanto, que o artista eleito “o músico brasileiro do século” chega  aos 60 anos de idade e 40 de carreira sem que sua obra tenha conquistado uma projeção internacional  – como a de um Tom Jobim – nem um alcance nacional – como a de um Roberto Carlos. Hoje, os discos e canções de Chico são para consumo e deleite majoritariamente do público da  Zona Sul carioca e de áreas nobres das grandes metrópoles do país. Ele é, neste sentido, um artista basicamente local, e restrito à sua classe social. Não há muita comunicabilidade entre Chico Buarque e as raízes do Brasil mais profundo, mais pobre, maior. O que é uma pena, para este mesmo Brasil, que fica, assim, privado de desfrutar canções como Todo o sentimento, Eu te amo, Morro Dois Irmãos, Futuros amantes, Beatriz e várias outras – que nós, os privilegiados, tão bem conhecemos.


* Paulo Cesar de Araújo é jornalista, historiador, mestre em Memória Social, professor da rede pública estadual e autor dos livros 'O sorriso da cidade' (com vários) e 'Eu não sou cachorro, não: música popular cafona e ditadura militar' 



Professor Carlos Sávio via e-mail


Nenhum comentário:

Postar um comentário